11 de nov. de 2011

Colunista do dia: Felipe Bianchi em "Einstein estava Certo"

Felipe não sabe dizer quando exatamente começou a se mover, mas o fato é que não tem memória do dia em que não se movia. “Esse garoto não pára”, era o que mais ouvia enquanto crescia. A sensação era estranha: parar seria como morrer. Aos 10 anos, naturalmente, ele não podia saber disso, mas hoje, quase 30, entende perfeitamente o que sentia:
parar seria simplesmente deixar de respirar.

Único filho homem em uma família de italianos radicados no Brasil, Felipe sempre foi merecedor de alguns benefícios que as irmãs mais velhas não tinham: um quarto só dele, bicicleta aos 8 e carro aos 18.
Ainda assim, era ele quem se sentia um alienígena dentro daquele

núcleo: não havia ninguém ali que gostasse, mesmo que bissextamente, de fazer qualquer tipo de atividade física. O pai, empresário bem sucedido, vivia em aeroportos e reuniões. A mãe dedicava-se a ler e aprender coisas novas. As irmãs não sabiam quem ele era e suavam apenas quando o ar condicionado do carro deixava de funcionar. Felipe olhava em volta e não via esperança.

Até que um dia saiu sozinho para pedalar, como fazia sempre, e não se sentiu bem. O ar, que sempre entrou naqueles pulmões tão facilmente, parecia não querer mais inundar seus órgãos. Com muito esforço, desceu da bicicleta, tirou o celular do bolso e, com a visão já obscurecida pela falta de oxigênio, conseguiu ligar para a irmã e dizer onde estava antes de apagar completamente.

Ao abrir outra vez os olhos, viu que estava em um hospital e que tubos saíam de seu corpo. Assustado, olhou para o lado e lá estava sua mãe.
“O que aconteceu?”, perguntou. Ela veio na direção do filho, colocou a mão em sua cabeça e explicou que ele havia passado por uma cirurgia nos pulmões. “Você tinha uma espécie de bolha nos pulmões. Um problema congênito e que nunca foi detectado. Quando elas estouraram, seu pulmão murchou e você parou de respirar.”

Quando conseguiu falar, perguntou se poderia voltar a pedalar. “A gente ainda não sabe”, disse a mãe, voz embargada e cheia de dor. E, embora ele tenha entendido ali que existe um tipo de sofrimento que é apenas nosso e de mais ninguém, ele também foi capaz de entender que se há no mundo outro grupo de pessoas capaz de sentir pelo menos parte dessa dor dilacerante que parece ser exclusividade nossa: o de mães.

Sob orientação médica, Felipe passou quatro meses em repouso dentro de casa. O pulmão precisava de um tempo para se regenerar e, durante esse período, ele não poderia se submeter a nenhum tipo de esforço. Tinha então 20 anos e foi quando percebeu que nunca havia ficado sem mover seu corpo e misturá-lo à natureza. Passava os dias zanzando de um lado para o outro, entediado, triste, sozinho.

Depois de três meses de clausura, durante uma consulta de rotina, ouviu o médico dizer que ele só estava vivo por causa da incrível capacidade pulmonar que havia adquirido ao longo dos anos: cortesia da necessidade que sentia de se manter em movimento constante. Foi isso, afinal, o que o salvou. E a sensação de que precisava se mexer para sobreviver bateu de forma literal: era seu corpo arrastando com ele um tipo de memória, ancestral e coletiva, que a cabeça de Felipe não era capaz de traduzir e entender. Felipe apenas sentia e reagia.

Seis meses depois da cirurgia, Felipe voltou a pedalar. Para comemorar a ocasião, convidou os pais e as irmãs para uma viagem à Patagônia.
Lá, iriam fazer uma travessia a pé. O que parecia a princípio um convite tão bizarro quanto acompanhá-lo em uma viagem espacial, aos poucos começou a ser entendido pela família como uma celebração à vida, um brinde à memória corporal de Felipe, uma memória que havia dado a ele a chance de fazer tudo outra vez, de crescer e viver até que o ciclo se encerrasse naturalmente, e não por culpa de um acidente. E assim, em homenagem a ele, foram todos à Patagônia. Era fevereiro de 2001.

Dez dias andando, dez dias de convívio, dez dias de refeições à mesma mesa, dez dias em que riram, choraram, discutiram, cantaram. Desde então, a viagem passou a ser um ritual familiar: todos os anos, em fevereiro, os Giavina arrumam as malas e se mandam para dez dias de caminhadas ou pedaladas longas. À frente, Felipe, o filho que, ao escutar a consciência de seu corpo, não apenas sobreviveu como ainda reinventou a vida em família.

*texto de Milly Lacombe para revista Trip de 2009

"Life is like a bicycle. To keep your balance you must keep moving." Einstein (1879-1955).

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